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O Legado Europeísta de Mário Soares – CEIRI NEWSPAPER
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Mário Soares, de seu nome completo Mário Alberto Nobre Lopes Soares, nasceu em Lisboa, no dia 7 de dezembro de 1924, filho de João Lopes Soares, professor, pedagogo e político da I República portuguesa, e de Elisa Nobre Soares. Casado com Maria de Jesus Simões Barroso Soares, ele teve dois filhos: João e Isabel. Soares faleceu no Hospital da Cruz Vermelha, na capital portuguesa, em 7 de janeiro de 2017. Ele licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1957. Mário Soares foi professor do Ensino Secundário e diretor do Colégio Moderno, fundado por seu pai, tendo exercido advocacia durante muitos anos, principalmente durante a ditadura, altura em que trabalhou com afinco na defesa de presos políticos, no Tribunal Plenário e no Tribunal Militar Especial. Aquando do seu exílio em França, Soares foi “Chargé de Cours” nas Universidades de Vincennes (Paris VIII) e da Sorbonne (Paris IV), tendo sido igualmente Professor Associado na Faculdade de Letras da Universidade da Alta Bretanha (Rennes). Durante seu percurso político obteve significativo reconhecimento, nacional e internacional. Doutor “Honoris Causa” por 36 Universidades, foram-lhe outorgadas inúmeras honrarias, em seu país e no estrangeiro.

Desde a época de estudante universitário, Mário Soares militou na oposição democrática ao regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar. Ele integrou o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF), em 1943 e, mais tarde, em 1946, foi membro da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), tendo fundado o MUD Juvenil e servido como membro da primeira Comissão Central. Em 1949, Mário Soares foi Secretário da Comissão Central da candidatura do General José Norton de Matos à Presidência da República; nove anos mais tarde, ele integrou a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Enquanto militante político compôs a Resistência Republicana e Socialista, na década de 1950, foi redator e signatário do Programa para a Democratização da República, em 1961, tendo sido candidato a Deputado pela Oposição Democrática, em 1965, e pela Comissão Eleitoral de Oposição Democrática (CEUD), em 1969. Em resultado da sua atividade contra a ditadura, Mário Soares foi 12 vezes preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) – cumprindo um total de quase 3 anos de cadeia –, deportado sem julgamento para a ilha de São Tomé e Príncipe, em 1968 e, em 1970, forçado ao exílio em França. Decorria o ano de 1973 quando Mário Soares fundou em Bad Münstereifel, na República Federal da Alemanha, juntamente com outros opositores ao regime português, o Partido Socialista.

Após a queda de Marcelo Caetano, o herdeiro político de Salazar, em 1974, Soares regressou a Portugal, em 28 de abril, no “trem da liberdade”. Teve início, naquela ocasião, uma carreira pública que o levou a servir, além de Secretário-Geral do Partido Socialista, durante 13 anos, como Deputado em todas as legislaturas (até 1986), Ministro das Relações Exteriores (I, II e III Governos Provisórios), Ministro sem Pasta (IV Governo Provisório), Primeiro-Ministro (I Governo Constitucional, 1976-1977 e II Governo Constitucional, 1978) e, ainda, como Presidente da República, durante dois mandatos (1986-1991 e 1991-1996). Do mesmo modo, desempenhou o cargo de Vice-Presidente da Internacional Socialista durante dez anos (1976-1986), até assumir a Presidência da República. Nas eleições parlamentares europeias de 1999, Mário Soares foi eleito Deputado para o período compreendido entre 1999 e 2004. Durante sua vida política, a opção europeísta foi uma marca indelével da atuação do político português. Entre aqueles que, no plano internacional, cruzaram seu percurso vital são de salientar François Mitterrand, Willy Brandt, Olof Palme, Felipe González, Bettino Craxi. No Brasil, personalidades como Leonel Brizola, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram a oportunidade de privar com o político português.

Mário Soares, enquanto Ministro das Relações Exteriores, tomou as primeiras medidas para desfazer um dos maiores equívocos do Estado Novo: a confusão entre a política exterior e a política ultramarina, fato que levou o país ao ostracismo internacional e à manutenção da Guerra Colonial, sem saída política, em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Nos estamos referindo ao Acordo de Lusaka, assinado em 7 de setembro de 1974, entre o Governo português e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e aos Acordos de Alvor, assinados entre o Governo luso e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), em 15 de janeiro de 1975, sem grande sucesso. O fim do Império Colonial motiva, ainda hoje, fortes críticas por parte dos setores conservadores da sociedade portuguesa e, sobretudo, das Associações de espoliados quer de Angola[1], quer de Moçambique[2].

Seria, contudo, a reorientação estratégica de Portugal em relação ao projeto europeu, fundado por Jean Monnet, Robert Schuman e  Konrad Adenauer, juntamente com outros líderes preeminentes do Velho Continente, que orientaria seu país nas grandes linhas de rumo. Logo em 1976, o Partido Socialista anunciava, na Cimeira Socialista levada a cabo na cidade do Porto, em 14 de março, aquele que seria o lema para as eleições legislativas daquele ano: “A Europa Conosco”. Nos anos seguintes, Mário Soares liderou as negociações rumo à adesão de Portugal à então Comunidade Econômica Europeia (CEE) que culminariam, em 1.º de janeiro de 1986, na entrada, juntamente com Espanha, naquele bloco político-econômico. Mário Soares que, ao longo de sua vida, não teve como previamente garantida nenhuma vitória ou a manutenção de uma posição já conhecida, foi um dos grandes protagonistas das mudanças sociais vividas pelos portugueses nos últimos quarenta anos. Com efeito, o país rural, pouco industrializado, com elevados índices de emigração e submisso da II República, se transformou numa média potência europeia, presente nas grandes questões mundiais, desde as Operações de Reforço e de Manutenção de Paz, sob a égide das Nações Unidas, ao apoio à concessão do Prêmio Nobel da Paz aos cidadãos timorenses Dom Ximenes Belo e a José Ramos-Horta, em 1996, e do Prêmio Nobel da Literatura a José Saramago, em 1998. O país também ganhou maior visibilidade internacional com a realização da Expo ’98, em Lisboa, durante 1998, e com a organização do Euro 2004, em futebol.

Republicano, socialista e laico, como se auto-definia, o percurso de Mário Soares foi o de um humanista integral. Autor de dezenas de livros, Mário Soares, ao honrar a memória dos judeus convertidos no século XV – os cristãos-novos – numa visita efetuada a Clive, em 17 de março de 1989, declarou enfaticamente: “Na paisagem alentejana e nesta tão bela terra, a judiaria ergue-se, desafiando os séculos, como um símbolo que desejamos seja de tolerância, de fraternidade e de unidade essencial do gênero humano. Em nome de Portugal, peço perdão aos judeus pelas perseguições que sofreram em nossa terra”. Anos antes, em 1987, reparando a memória do Dr. Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul que desobedeceu às determinações do Ministério das Relações Exteriores, em junho de 1940, concedendo vistos de trânsito a mais de trinta mil refugiados, de entre os quais dez mil eram judeus, o político lusitano entregou a Ordem da Liberdade à filha do ex-Cônsul, em cerimônia realizada na Embaixada de Portugal, em Washington, D.C, tendo a família do diplomata recebido desculpas públicas por parte do dignitário português. Em 12 de setembro de 1991 foi constituída a Fundação Mário Soares, situada nas proximidades do Parlamento português.

A Fundação é “uma instituição de direito privado e utilidade pública sem fins lucrativos, ligada à pessoa do ex-Presidente da República Portuguesa”. Cinco anos mais tarde, em dezembro de 1996, em Cortes, Leiria, abria as portas ao público a Casa-Museu Centro Cultural João Soares. O edifício foi “doado pela família Soares à Fundação e por esta completamente recuperado e remodelado”. No edifício da Fundação “foi criada uma biblioteca e existem espaços destinados a exposições temporárias das ofertas recebidas por Mário Soares durante a sua vida pública, como Primeiro-Ministro e depois como Presidente da República. Simultaneamente, foi concebida uma exposição permanente, dotada de meios audiovisuais, que apresenta uma visão sintética do Século XX português”. Praticamente até o final da vida, numa atividade de cunho demopédico[3], Mário Soares colaborou na revista Visão, de Lisboa, e nos jornais Diário de Notícias, também de Lisboa, e no El País, de Madrid.

Portugal, um dos países mais antigos do mundo, ao longo de sua História alcançou reconhecimento que ultrapassou, em muito, sua dimensão geográfica e suas fronteiras territoriais. Logo na Idade Média, Santo Antônio de Lisboa, Pedro Hispano – o Papa João XXI – e o Rei Dom Duarte são personalidades que levaram o nome do país muito além do território nacional. No Renascimento, a expansão portuguesa, representada por Vasco da Gama, Dom Francisco de Almeida e Luís de Camões, foi pioneira e fez com que o país iniciasse o processo de globalização no qual, hoje, estamos imersos. Seguiram-se séculos de obscurecimento, iniciados no século XVII com a consolidação do domínio filipino (1580-1640), que se agravaram com o constitucionalismo de matriz francesa, que marcou a vida política portuguesa ao longo de boa parte do século XIX. Mário Soares renovou o ideal pátrio ao liderar o esforço de reintegração do país na comunidade internacional. Sua presença marcante na vida portuguesa fez dele alguém ímpar tanto em Portugal, quanto na Europa da segunda metade do século XX.

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Imagem 1 Mário Soares” (Fonte):

http://img.20mn.fr/T1uFsIi7TlGvsGvGYusvYw/2048×1536-fit_mario-soares-5-juin-2013.jpg

Imagem 2 Mário Soares (centro) durante as celebrações do 40.º aniversário da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 2014” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Mario_Soares_Carmo_1_1.jpg

Imagem 3 Mário Soares com o então presidente brasileiro José Sarney (à direita), em 1988 ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Mário_Soares_e_José_Sarney_1988.jpg

Imagem 4 Vista geral da zona central da EXPO98” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Exposição_Mundial_de_1998#/media/File:Lisboa_-_Expo98_-_Vista_Geral.jpg

Imagem 5 Exéquias fúnebres de Mário Soares no Mosteiro dos Jerónimos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Exéquias_do_ex-Presidente_da_República_Portuguesa,_Mário_Soares_03.png

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] VerAssociação dos Espoliados de Angola (AEANG)”:

http://www.aeang.com/

[2] VerAssociação dos Espoliados de Angola (AEANG)”:

http://www.aemo.org/

[3] Mas o que queremos, os democratas? E o que é a democracia? Democracia, disse o socialista Proudhon que era demopedia. De dêmos, povo; kratos, governo. De dêmos, povo; paideia, instrucção, educação”, SAMPAIO BRUNO, Os Modernos Publicistas Portugueses, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Editores, 1906, p. 402.


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1Commentaires
  • Paulo Fernandes
    février 9, 2017 at 2:50

    Mário Soares, fora sim um baluarte na intenção de fazer de Portugal um país moderno, de destaque no cenário político europeu e internacional. Portugal e o mundo souberam reconhecer isso.

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